27 de setembro de 2014


                             SEM PERSPECTIVA

Uma silhueta magra, pequena, caminha devagar, atravessando a fronteira poeirenta. O sol a pino é muito ardente, faz o suor escorrer pela face jovem do menino. Vez em quando ele chuta uma pedra, olha para frente, parece ainda não ter esquecido que é criança. Não há estrada por aqui. É uma trilha, isso que é. Muitos já passaram por ali, outros vem logo atrás, trazem tudo que podem em sacolas, sacos, alguns carrinhos puxados a mão. O vulto para, vira, olha perdidamente o caminho. O choro brota-lhe dos olhos. Leva as mãos ao rosto, enxuga um pouco, balança a cabecinha, chuta outra pedra...
Seu pai morreu... A bomba despedaçou a casa, os escombros o soterraram. Sua mãe veio em socorro, estava lá no fundo do quintal. Recebeu um impacto, não resistiu. Ele salvou-se milagrosamente, estava no terreno ao lado. Seu cachorro sobreviveu. Não quis sair. Estava ao lado de seu pai. Agora estaria perambulando esfomeado, procurando água e alimento. As carcaças humanas lá estavam. Os cachorros são respeitosos. Morrem de fome; jamais comeriam a carne do seu próprio dono. Ficaria esperando para que seu melhor amigo se levantasse. Eles respeitam a vida...Dá a sua própria em defesa daqueles que ama. Se tiver sorte, chegando do outro lado, poderá encontrar um bondoso casal, ficar com eles, ser tratado como filho. Outra sina, poderá abraçar seu futuro... Levarão como escravo; será usado sexualmente, como serviçal, lavando os pés daqueles que tem dinheiro e poder. Não encontrará alma bondosa, estendendo-lhe a mão.
Os humanos, tresloucados, não conseguem entender-se, matam-se, lutam numa guerra insana, fratricida, sem objetivos claros, porque a guerra, nunca foi a solução, para disputas que o homem inventa, no curso do seu rumo. São feitas para conquistar petróleo, território, água, dinheiro, poder para aqueles que a vencem.
As barracas, algumas, já estavam montadas, tinham donos, apesar do ambiente ser impróprio para tamanha aglomeração. 
O menino lembrou do seu amigo, com quem brincava todos os dias. Jogavam a bolinha, Dindim corria, pegava-a, não errava uma bocanhada. Seus pais, inertes, no meio da destruição, não podiam mais dar-lhes cuidados, estavam mudos, como ele agora, sem saber o que falar, lembrando tudo, girando no seu pensamento. Era apenas uma criança, não sabia o que fazer, , onde ir. Chorou novamente... Ficou a cismar, perguntando mentalmente a interlocutores fictícios:
--- Você já foi criança? Passou por tal situação?
--- Meu pai e minha mãe não participavam da guerra! Eles estavam no meio da guerra!...
--- Sabe o que é perder tudo? Tudo!...Em minutos!
--- Eu sei agora!... Até o Dindim deixei para trás!... Está passando fome!... Tadinho!... O que faço?
Já entardecia... Ajoelhou-se em prece, olhou para o horizonte, não acreditando mais no homem. Última lágrima que eu vi...

Autoria= Gino Marson       23/09/2014      21:32
 

26 de setembro de 2014






                            RENASCER

Escutei o sabiá cantando. Eram dois, três, quatro, vários. Eles não vinham anteriormente. Agora ficam aqui pertinho. Criam seus filhos nas cidades, nas árvores das praças, ruas, ocupando o espaço que antes era deles. Escute-os, reflita, ainda que destruas mais ainda, terá tempo de salvar a vida...

Autoria= Gino Marson        24/09/2014



                                 SONHOS

Quando crianças, sonhamos em ser adultos. Mal deixamos nossos brinquedos, vem a vontade de fazer tudo que os mais velhos fazem. O tempo passa rápido, nem percebemos. Já adolescentes, fazemos planos de pessoas mais velhas. Queremos namorar muito, casar, ter filhos, envelhecer ainda sendo jovem. Na idade avançada, ficamos decepcionados com que fizemos, aquilo chamado de felicidade, vida que já não retorna. É assim, quando queremos viver intensamente. A idade chega, o tempo passou, queremos tudo num abraço. Só um! Ainda que seja rápido, curto, em tempo, se puder!...

Autoria= Gino Marson        01/09/2014      0:23



                           SEM EXPLICAÇÃO

Quem somos nós? Por que estamos aqui? Uma enorme bola azul no espaço. Não vamos nem para lá, nem para cá. Conseguimos ficar no mesmo lugar. As religiões sempre tem uma explicação fácil. Os cientistas uma enorme teoria pouco provável. Tudo contado em milhares de palavras, escritas nas pedras, nos livros, desde os antigos aos modernos. Só nos falta a única verdade, nunca dita, nem repassada. Difícil tê-la, pois somos frágeis, quanto mais explicá-la. E o restante que é muito, numa janela sem fim, olhando mais adiante, nos assusta, provoca, um olhar infinito sem explicação coerente. Enquanto isso, o cachorro late, o sabiá canta, o automóvel passa veloz, a menina requebra aos olhares curiosos, a ambulância passa apitando, levando o enfermo, outro grita, vendendo algo, dizendo estou aqui! Alguém precisa? Olho para cima, as nuvens brancas, bem alvas, puras, um sem fim de pensamentos me dizendo: Amanhã será igual? Verei minha querida?
Tal qual o transeunte, deparei; pensei muito na vida. E que vida!...As vezes sórdida, outras bendita. Melhor viver devagar, observando, pensando, sem pedir explicação lógica, pois todos as tem. Apenas seguir adiante, vivendo a vida. Ser feliz, enquanto me for permitida...

Autoria= Gino Marson        23/08/2014      11:41

22 de setembro de 2014





                           Amigo Inseparável

Quando eu estou triste, ninguém me mandou um recado confortador, vou ao computador, envio-me uma mensagem alegre, carinhosa, consoladora e pronto. Alimento meu ego, satisfaço uma necessidade premente, fico de bem comigo mesmo. É insólito fazer isso; necessário para meu bem estar. Você já fez isso? Experimente! Vai aumentar sua auto estima...

Autoria= Gino Marson        29/09/2012


                                   Coração

Coração está no peito
Sempre soube disso
Me diziam desde menino
Olha e cuida dele
Isso já me irritava
Tinha que levá-lo sempre
Mesmo que mal quisesse
Então pus-me a cismar
Que essa peça todos tem
Sempre vital em tudo
Enquanto não usá-la
Num desenfrear maluco
Cheio de ternura e carinho
Aí fica doente, arredio
Se não for de verdade
Bem usado, sincero
Com honestidade humana...

Autoria= Gino Marson



                             Mulher

Vi uma mulher
Outras também
Pude ver enfim
São sonhos reais
Aqueles quando não dormi
Aquela no meu pensamento
Ideal, sem pudor, sem defeitos
Existe bem perto, ali
Onde sonhar não é possível
Apenas vivê-la intensamente
Enquanto possível for
Enquanto me permitir


Autoria= Gino Marson